terça-feira, 18 de setembro de 2012

Constatação


Em versos livres sobre uma verdade Winnicottiana


Quando a gente vê um bebe sozinho
O que é que exatamente a gente vê?
A gente vê um pedaço,
Uma parte,
Uma fração...
Porque um bebe sozinho não existe...
O que existe
É um bebe
E a sua mãe...
Constatação...

Fanáticos por dopamina



Quando se pretende discutir a complexa e amplamente negligenciada questão dos direitos universais do bebe prematuro, pano de fundo que qualifica, em ultima análise, a eficiência ampliada de uma Unidade Neonatal, ou quando se estabelece a discussão acerca da observância pelas equipes de saúde à inviolabilidade destes direitos naturais da espécie humana, é necessário antes de qualquer coisa estabelecer uma compreensão consensual dos conceitos bebe prematuro e prematuridade da forma como os utilizamos, de modo a permitir sua utilização ótima e sua aplicação aceitável, evitando a tradução incompleta ou deturpada da informação que se pretende movimentar.
O termo prematuridade está associado à duração do tempo de gestação dos bebes humanos. Embora já se discutam em vários protocolos a definição exata da duração fisiológica da gestação humana necessária para o nascimento a termo, a Organização Mundial da Saúde estabelece o marco de 37 semanas como limítrofe entre a prematuridade e a duração da gestação fisiologicamente aceitável para o nascimento em tempo ótimo.
A condição prematura, entretanto, abrange uma ampla variação clinica, implicando em incidência variada de manifestações que vão desde aquelas presentes na prematuridade extrema àquelas outras que definem a prematuridade limítrofe. Isto permite afirmar que a prematuridade possui uma plasticidade que empresta a ela uma imensa gama de significados. Sua expressividade e complexidade são inversamente proporcionais à duração da gravidez: quanto mais curto o tempo gestacional, mais ricamente caracterizada é a manifestação clinica da prematuridade, quanto mais longo esse tempo, menos expressiva ela é.
A prematuridade relativa a 25 semanas é inteiramente diferente em seu significado funcional daquela outra relacionada a 36 semanas de gestação. Além de clinica, essa expressão amplamente diversificada diz respeito às conseqüências familiares e sociais que são da mesma forma diretamente ligadas à intensidade dessa prematuridade. É, por isso, um conceito amplo, e não único. Uma palavra única com significado múltiplo. Muitos conceitos em um único termo. A prematuridade e sua significação plástica. A prematuridade e a necessidade de se compreende-la em sua larga abrangência de sentidos. Todos num só. Um só significando tanto.          
Nascer prematuramente, por sua vez, é um importante acontecimento global. Segundo dados da Organização Mundial da Saude, no ano de 2005 aproximadamente 10% da população mundial nasceu antes do tempo adequado. Esse numero corresponde a alguma coisa em torno de 13 milhões de nascimentos prematuros em todo o planeta naquele ano. 11 milhões desses nascimentos prematuros ocorreram na África e na Ásia, sabidamente os continentes mais pobres do mundo (1). Para bebes tão pequenos são números gigantescamente assustadores. Dados estarrecedores quando o assunto são bebes tão delicados.
Em um de seus estudos, a Dra Nathalie Charpak afirma que o mapa da prematuridade se sobrepõe ao mapa da miséria em nosso planeta (2). Os números da OMS dramaticamente confirmam isso. Essa simples constatação dimensiona a importância social do nascimento prematuro e das suas conseqüências para a vida do planeta.
Uma realidade que impressiona.
Como afirmado anteriormente, o nascimento prematuro além das previsíveis e hoje bem estabelecidas conseqüências fisiológicas para a historia de vida do bebe, é o responsável direto por inúmeras intercorrências na vida de sua família e do ambiente social em sua volta, envolvendo cuidadores, gestores e apoiadores que formam assim uma imensa rede social em busca de caminhos muitas vezes de natureza empírica e intuitiva no sentido de tentar devolver naturalidade àquele nascimento.
Essa grande crise caracterizada por culpas, medos, sustos, enfrentamento de dificuldades vivenciadas na busca de uma vaga em Unidade Neonatal, associado a submissão compulsória às barreiras impostas às mães e familiares desse bebe ligadas ao lento e doloroso aprendizado do convívio com as regras rígidas que comandam o funcionamento destas Unidades traz até a família prematura uma mistura de sentimentos ao mesmo tempo de solidariedade e abandono, de esperança e de perda, de desespero e de fé. A sociedade é chamada a prestar apoio. As instituições de saúde se argumentam com tecnologia cada vez mais complexa.  Crise. Gastos. Desenvolvimento tecnológico. De um nascimento prematuro ninguém parece escapar ileso.
Desta grande engenharia e conjunção de conhecimentos multiprofissionais, nasce para a neonatologia moderna um grupo de personagens a que podemos chamar bebes de UTI, recém-nascidos criados sob o cuidado distante da família e entregues aos avanços tecnológicos indispensáveis acionados para otimizar a monitorização e o tratamento dos agravos que acompanham o nascimento prematuro. Desde o inicio, envolvidos por um numero cada vez maior e mais complexo de artefatos, estes bebes de UTI desenvolvem respostas físicas e comportamentais semelhantes, fortalecendo a motivação necessária para que este conceito, bebe de UTI, se popularizasse.
Um conceito embutido guardado no termo prematuridade é o significado do que chamamos bebe prematuro.
É perfeitamente compreensível por conta das características que a condição prematura empresta a esse bebe que o senso comum tenha resolvido chamá-lo bebe prematuro. Da mesma forma é perfeitamente previsível que o conjunto de eventos clínicos comuns a este grupo especifico de bebes tenha criado a necessidade de encontrar um termo didaticamente adequado para defini-lo. Também é absolutamente aceitável que o conjunto de respostas às duvidas da família e de toda a
sociedade sobre esta criança possa ser oferecido em bloco pelas ciências da saúde e ser direcionado a um estereótipo de bebe que o conceito comum adotou como nome de bebe prematuro, uma espécie de sub-grupo fortemente representativo da família dos bebes de UTI.
É preciso observar entretanto um aspecto fundamental que passa muitas vezes despercebido ao olhar comum quando se adota o conceito de bebe prematuro.
Considerando o bebe humano nascido dentro do período fisiologicamente considerado ótimo, é fundamental compreender que o bebe prematuro não representa uma individualidade diferenciada daquele outro com características diversas, e que a prematuridade que traz graves conseqüências à sua fisiologia não torna, apesar disso, o bebe prematuro menos integro, menos digno e menos completo que aquele outro.
O bebe prematuro não é, por conta disso, uma entidade per se.
A imensa variabilidade de expressões clinicas carreadas pela prematuridade conforme sua intensidade sequer permite simplificar o conceito bebe prematuro, que como vimos não é um só, são vários, distintos, imensamente diferenciados e bem caracterizados.
A prematuridade que empresta ao bebe humano o rotulo bebe prematuro é um fenômeno de manifestação transitória e superável ainda que com níveis diversos de conseqüências a longo prazo, mas que em hipótese alguma diminui sua competência ou limita as potencialidades de sua totalidade e integridade como ser humano.
Não há, portanto uma dualidade formada entre os bebes nascidos a termo e os nascidos de modo prematuro. Sua diferenciação é meramente fisiológica e não qualifica competências, dignidade e direitos distintos.
O bebe prematuro não existe como um ente.
Isso é um fato.
A condição prematura não pode arranhar sua condição inegociável de autentico representante da espécie humana.
É muito comum ao profissional de saúde e mesmo à família e à sociedade confundir fisiologia e competências, sinais clínicos e habilidades emergentes destes bebes com nascimento prematuro. Esta confusão conceitual e incompetência profissional é muitas vezes a principal responsável pelo comportamento inoportuno das equipes de saúde e dos familiares em relação a estes bebes.
Preocupada com as conseqüências deste olhar equivocado sobre a vida e as capacidades do bebe, a ciência tem tentado desde as ultimas décadas buscar alternativas que permitam a ampliação do cuidado com este bebe para além dos limites da Unidade Neonatal e de seus dispositivos constrangedores e desrespeitosos, permitindo-se, através de caminhos alternativos, facilitar o envolvimento acolhedor dos pais, da família, da sociedade e de seus próprios cuidadores em direção à atenção integral a este bebe nascido prematuramente.
São exemplos destas alternativas da ciência redimida a Metodologia Mãe Canguru que devolve à mãe o mátrio poder perdido pela condição prematura do nascimento de seu filho, permitindo a retomada do vinculo roubado pela Unidade Neonatal, bem como outras formas do cuidado dito “humanizado”, como o NIDCAP, cujo grande mérito é a ampliação do foco da atenção profissional para além da condição clinica do bebe, envolvendo o ambiente, o acesso da família ao bebe, a “ecologia” da Unidade Neonatal de uma forma geral , capacitando o profissional para uma percepção diferenciada da fisiologia do bebe e do manejo de seu entorno.    
Não é muito lógico esperar coerência de um planeta onde um bilhão de pessoas passam fome (3) que necessitaria, segundo dados da ONU, o investimento de 3 bilhões de dólares para ser controlada e que ao invés de controlar essa fome que destrói a própria espécie faz opção por gastar 1,3 trilhões de dólares com armamentos nucleares. Um planeta que vê morrer uma criança a cada 3,6 segundos de causa evitável e que se comporta como quem não se importa ou como quem parece não se incomodar com isso.
Esta incoerência e falta de critérios éticos espalha seus fragmentos altamente prejudiciais à dignidade humana por todas as áreas da vida contemporânea.
A saúde não escapa ilesa dessa influencia desastrosa.
Uma sociedade em colapso.
Restringindo nosso olhar para o comportamento médico em relação ao bebe nascido prematuramente não é difícil detectar sinais dessa incoerência e falta de critérios éticos, fruto de uma civilização esquizóide e autodestrutiva.
Temos sido treinados a utilizar sistematicamente uma linguagem bioquímica e farmacológica durante nossa pratica diária no trato com esses bebes. Acabamos assim por nos tornar especialistas em miliequivalentes e miligramas, tornando-nos especialistas em traduzir alterações fisiológicas em leitura bioquímica e cuidados necessários em leitura farmacológica.
Fanáticos por dopamina, perdemos o fio da meada que nos conduziria ao cuidado  individualizado com o recém nascido, desprezando o ponto de vista do cuidar em detrimento do fúria curadora em tratar.  
Desprezamos os decodificadores da linguagem corporal desses bebes e certamente por isso tornamo-nos especialistas em compreender taxas glicêmicas e índices de saturação ao mesmo tempo em que nos analfabetizamos na leitura do bocejo de um bebe, de suas mãozinhas cerradas, olhinhos bem abertos ou de seu braço sobre a face como se desejasse se esconder ou se proteger de nós. Mal soletramos, sua regurgitação, sua organização, de sua desorganização. Simplesmente ignoramos e sequer registramos seus significados nos prontuários clínicos durante nossas visitas diárias.
Normatizamos algorritmos bem fundamentados que entram em ação cada vez que a saturação periférica de um bebe cai de 96 para 72%, mas somos paradoxalmente incapazes de abraçar e confortar uma mãezinha adolescente de primeiro filho que entra chorando na Unidade para visitar seu bebe pela primeira vez. Estamos muito longe de entender a dor materna e conecta-la com a queda de saturação de seu bebe. Estamos muito distantes da aceitação do fato que a harmonia materna pode ser utilizada para a estabilização da vida de seu filho. A UTI é Neonatal. A dor da mãe não entra na tomada de decisão. Assumimos sistematicamente uma postura de completa negligencia em relação e essa dor e quando decidimos intervir, na maioria das vezes utilizamos conhecimento tácito, empírico, improvisado e por inspiração do momento. Desaprendemos a função do abraço. Nos afastamos da vida. A ciência sequer preta atenção habitual no cuidado materno. Em recente estudo, Caroline Tronco e cols analisaram o conteúdo temático de 608 resumos de trabalhos acerca da saúde de bebes de baixo peso e de muito baixo peso em UTIs neonatais publicados entre 1990 e 2008. Embora demonstrassem os “avanços na atenção a saúde do recém-nascido, a complexidade clínica e as implicações para sua assistência” estes estudos revelaram nas suas letras o grande ausente do cuidado com este bebe: a sua família. Ainda não percebemos a importância essencial de um cuidado voltado para o desenvolvimento do bebe e centrado na família. Família não cabe em ampolas. Família não se mistura com monitores. Vamos priorizando a tecnologia e asfixiando o humano sem perceber que isso é a trajetória para o colapso.
Da mesma maneira, a saturação, a coloração da pele, a presença de resíduo gástrico hemorrágico ou não recebem invariavelmente de nossa pratica equivocada um tratamento e uma leitura preferencialmente bioquímica em detrimento da que poderia levar à correção dos fatores ambientais favorecedores da desorganização que muitas vezes é a causa maior dessa pele moteada ou desse resíduo indesejável.
Fanáticos por dopamina, já não sabemos ler a linguagem do corpo. 
Analfabetizamos.
Submersos em imensa lista de diagnósticos clínicos em busca de resolução, não valorizamos o fato de que os bebes nascidos prematuramente são dotados de razão  e consciência e possuem vida anterior ao nascimento, bem como memória, aprendizado, emoção e capacidade de resposta e interação com o mundo em sua volta, acabando assim por desrespeitar sua integridade mais ampla e desconsiderar sua capacidade de percepção e interação...    
Acostumados com a rotina diária e impessoal de nossas atividades clinicas, não percebemos o direito desses bebes de serem reconhecidos em todos os lugares como pessoa perante a grande Lei Universal.    
As normas rígidas e muitas vezes exageradas do funcionamento das Unidades Neonatais fazem com que nossos olhos profissionais descuidados não dêem importância à preservação do vínculo familiar como parte fundamental da vida deste bebe. Estabelecemos horários para visitas maternas, transformando pais em visitas e ferindo mortalmente o vinculo sagrado entre a mãe e o bebe que deveríamos preservar.    
Sufocados pelas dificuldades sociais e tecnológicas muitas vezes intransponíveis e fora de nosso alcance, negligenciamos a esse bebe o tratamento idealmente estabelecido pela ciência contemporânea, deixando de oferecer a ele o cuidado de uma equipe multidisciplinar capacitada a compreendê-lo, interagir com ele e a tomar decisões harmônicas em seu beneficio e em prol de seu desenvolvimento. Arquitetamos a falta de vagas investindo mais valores em defesas militares que em preservação da vida de um bebe.  
Habituados à sua rotina bioquímica e farmacológica, desaprendemos a leitura dos sinais comportamentais dos bebes que observamos, deixando com isso de identificar, compreender, valorizar e respeitar os seus sinais de aproximação e afastamento como se não fossem fundamentais para a sua organização e sua saúde, objeto final de nosso trabalho. É assim que nos tornamos quase cegos. É assim que nos comportamos como analfabetos por não conhecer nem identificar a linguagem corporal muitas vezes gritantes destes bebes.
Ignoramos quase sempre a possibilidade da prevenção da dor nesse bebe, submetendo-o inadvertidamente a tortura clinica cruel e degradante. Passamos por cima dos processos disponibilizados pela ciência atual para prevenir essa dor, prejudicando sua reorganização em nome das necessidades protocolares das rotinas do serviço. Bastava tão pouco para protegê-lo da dor e ainda assim não o fazemos por falta de pratica ou de interesse.
Impedimos em nome dessa mesma rotina o seu direito ao repouso reparador, interrompendo de forma aleatória e irresponsável e sem motivo justificado seu descanso, e ainda desrespeitando seus períodos de sono superficial e profundo, essenciais para seu desenvolvimento psíquico adequado e sua regulação biológica,
Relaxamos muitas vezes em relação a preservação dos limites de ruído que a Unidade Neonatal impõe a este bebe. Misturamos o som do maquinário ao barulho desmedido de nossa voz, perturbando sua necessidade de repouso sonoro que desde o útero favorece seu desenvolvimento psicomotor. E não assumimos esse crime hediondo e repugnante.
Submetemos esse bebe inúmeras vezes por dia a procedimentos estressantes aplicados de forma displicente, injustificada e abusiva. Trocas de fralda, pesagens, tomadas de temperatura, verificação de eliminações, tudo feito de forma desordenada e assincronica, em nome de uma rotina negligente, desumana e irresponsável.
Não permitimos, sob a alegação de monitorização continua, que esse bebe perceba a alternância entre a claridade e a penumbra, para ele a noite e o dia. Anarquizamos com isso sua fisiologia circadiana de modo displicente e sem perdão.
A nossa UTI Neonatal não tem lugar para a mãe e sua imensidão inteira. É Neonatal. Não maternal. Por conta disso delimitamos horários para presença da mãe na unidade, dividindo de modo criminoso o indivisível, e desconsideramos por inúmeras vezes a possibilidade da adoção da Metodologia Mãe Canguru que permitiria a esse bebe crescer e desenvolver-se à luz do amor materno, do calor materno e do leite materno que simbolizam a ciência tecnocrata redimida. 
Tratamos com descuido e sem zelo as possibilidades desse bebe ser alimentado com o leite de sua própria mãe. Negligenciamos suas possibilidades de sucção, permitindo muitas vezes de forma inadvertida seu contato com formulas artificiais e bicos de chupetas e mamadeiras. Faltamos com o empenho necessário para a criação de Bancos de Leite Humano, uma vez que nenhum custo financeiro deveria ser  considerado demasiadamente grande quando utilizado em seu beneficio. Permanecemos distantes do dia em que nenhuma fórmula láctea será displicentemente prescrita e nenhum zelo será descuidadamente aplicado sem que isso signifique desatenção e desamparo.        
Caminhamos para um tempo em que se torna irreversível a necessidade de reformulação do ambiente do bebe nascido prematuramente.
Vale anotar que esse bebe nasce de forma prematura por causas e fatores quase sempre ligados à história materna, e não à sua condição propriamente dita: gravidez em meninas menores de 16 anos ou em mulheres com mais de 35, uso irresponsável de drogas, álcool e tabagismo, hipertensão e diabetes materna, nefropatias durante a gravidez, descolamento da placenta, quantidade anormal do líquido amniótico, anemia, pré-eclampsia, gravidez múltipla, pré-natal irregular, etc...
Isto equivale a dizer que o grande distúrbio fisiológico sofrido pelo bebe que nasce prematuramente não tem origem primaria em suas disfunções orgânicas, uma vez que, ao inverso disso, essas disfunções são conseqüências da profunda e extemporânea alteração de seu habitat. Salvo os distúrbios diretamente causados pela condição materna, durante sua vida intra-uterina este bebe não apresenta nenhuma alteração fisiológica. O nascimento prematuro, ao roubar-lhe o meio adequado, cria as condições suficientes para transformar este bebe hígido no que didaticamente passou a ser definido como bebe prematuro.
É o meio, e não o bebe, portanto, o grande erro.
É o meio, e não o bebe, por isso, o grande problema.
A busca da reformulação do ambiente extra-uterino desde a valorização desta verdade inconteste tem sido o grande trabalho da neonatologia moderna.
Da mesma forma que nós, profissionais dos primórdios do terceiro milênio, nos perguntamos sobre como era possível há 200 anos atrás a sobrevivência de bebes nascidos prematuramente longe dos recursos da tecnologia contemporanea, seguramente daqui a algumas centenas de anos os netos dos nossos netos se perguntarão sobre de que forma nossos bebes dos dias de hoje conseguiram sobreviver ao ruído, ao toque exagerado, à dor, à luz, à separação materna, ao isolamento e à nossa tanta desatenção e negligencia...
Chegamos ao inicio.
Recomeçamos.
O mais importante até aqui foi termos criado as condições necessárias para conseguirmos chegar a este hoje com os olhos voltados para o amanhã.
Um amanhã onde a integridade humana seja preservada desde a concepção até a idade mais senil, onde o homem não seja dividido em legendas e onde a sua compreensão e seu acolhimento sejam considerados de forma integral e completa: biológica, emocional e social.
Onde o fanatismo em torno da dopamina se transmute em reverencia às manifestações da vida e à linguagem do corpo.
Onde nos alfabetizemos na língua da vida exuberante e plena e universal.
Um tempo onde a Unidade Neonatal possa tornar-se uma Unidade Neonatal Maternal, e porque não dizer paternal, familiar...

E neste dia estaremos chegando a um novo inicio cuja semente plantamos cuidadosamente desde aqui.
Esta é a vida.

Deus esteja conosco em nossa caminhada.
Hoje e sempre.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Treze milhões

A OMS calcula treze milhões de nascimentos prematuros a cada ano no planeta...

Somos treze milhões de almas apressadas,
Nascidas antes do tempo que era pra ser,

Treze milhões de alguma forma condenadas,
Um numero que não para de crescer,

Somos treze milhões de almas deportadas
Para um cárcere onde não se vê o sol nascer,
Longe dos braços das nossas mães, desconsoladas,
Com medo do que nos possa acontecer...

Treze milhões de almas aprisionadas
Em casas de acrílico padronizadas,
Sozinhas, entristecidas de tanto sofrer...

Somos treze milhões de almas cansadas,
Precisando demais ser abraçadas,
Treze milhões querendo tanto viver...

sábado, 8 de setembro de 2012

Texto inicial do documentário "Os dias de UTI"

Desabafo
Livia Ressiguier

Se alguém me perguntar qual foi o pior daqueles dias eu respondo sem ter que refletir um só minuto: foi o dia em que te vi pela primeira vez. Mesmo sabendo que tive um parto prematuro e mesmo ouvindo do seu pai e do meu pai a mesma frase: “ela é muito pequena!”, dar de cara com você absurdamente miúda foi com certeza a pior sensação que já tive.

Cheguei a UTI ansiosa para te ver. Ouvi você chorar no parto. E porque já estava certa de que Deus já tinha me dado você, nada mais importava. Mas quando te vi, a pergunta que fiz para Deus foi: Meu Deus, mas como? Ainda hoje ao recordar aquele dia, sinto resquícios desta dor. Esperava sair de lá com minha bebê, pequena. Não pensei em problemas, em aparelhos, em distâncias. Pensei apenas que você seria pequena e que eu cuidaria de você para você crescer. Mas meu amor, você era minúscula. Eu realmente nunca imaginei que um bebê tão pequeno pudesse existir.

Quando recebi alta, ao cruzar a porta do fiz uma promessa: “prometo que algum dia nós vamos cruzar juntas essa mesma porta, e que até lá vou dar até minha última gota de esforço para que você sofra o menos possível”. Não consegui. Não consegui não sofrer, não consegui evitar o seu sofrimento. Na UTI não existem analgésicos. Tudo é feito a frio, a seco, a carne viva e a sua dor parece não ter a menor importância perto da gravidade da situação. Parecia que eu tinha sido enganada por Deus. 

Não!!! Absolutamente não era aquela a filha que eu tinha “encomendado”. Tinha encomendado uma bebê gordinha, lindíssima, filas de visitas, pratinhos de canja, amamentação olhando nos olhos, canções de ninar, desfiles de roupinhas... Nada parecida com essa mini bonequinha magrela e olhuda, de fralda dentro dessas caixinhas aquecidas e com um bando de fios ligados no corpo. Nem tocar em você eu podia!!!! Foi a segunda grande dor que senti. Não poder tocar em você, não poder pegar no colo meu nenenzinho foi simplesmente insuportável. Um vazio em meus braços incalculável, e você lá precisando tanto de um carinho.

Em pouco tempo percebi que não existia nenhum 0800 com linha direta para o céu, nem “fale conosco” com email ou chat para eu poder reclamar e resolver a situação. A UTI testa o tempo todo os seus limites. Você vive no limite entre a vida e a morte, numa roda viva de emoções das mais intensas, conhece de perto o pavor, a impotência, a frustração, a exaustão. E tem que estar sempre pronta a tomar decisões rápidas e conscientes. É muito difícil. Você se sente solitária. Lembro que entrava no elevador e prendia a respiração até chegar à porta da uti, tentando não ser pega de surpresa por algo muito ruim.

Com o coração disparado, ao me aproximar da sala queria sair correndo de tanto pânico... medo das notícias...medo da perda...medo da piora...medo do futuro...medo do presente...medo de ser fraca...medo de ser culpada...medo de não saber o que fazer. Assim passaram-se semanas entre apnéias, convulsões, enterocolites, transfusões, insuficiências respiratórias, sepsis e pneumonias... Doutor, não quero ouvir essas palavras difíceis de entender. Me diga apenas que está cuidando o melhor que pode da minha filhinha, pois essa pequenina ai na sua frente ainda é meu bebê. Quero que ela seja cuidada com carinho. Pois, quando olho sua frágil aparência, o que eu vejo é força.

Quando olho cada dia de dificuldade que enfrenta, o que eu sinto é amor. É difícil entender todos esses aparelhos conectados à minha filha, mas ainda consigo ver que por trás deles está a minha linda bebê. Não quero saber das impossibilidades, quero ter esperança. As estatísticas de que fala não conhecem o meu Deus. Quero me preparar para o dia maravilhoso, da nossa comemoração, só nossa, porque somos só nós duas. Sou sua e você é minha, só minha, não divido com ninguém. Quem decidiu me dar você foi Aquele maior de todos, e ninguém menor do que ele pode querer tomar esse lugar.

Texto final do documentário "Os dias de UTI"

Os dias de UTI são longos, lentos ,solitários....
São dias em que a tecnologia asfixia o afeto e isso os torna tristes demais
E frios demais.
Os dias de UTI seguem assim: dolentes...
Filhos dolorosos gemem por suas mães, por seus colos...
Mães dolorosas gemem por seus filhos...

Quem cuida das mães de UTI
Que esperam por seus filhos, assustadas?
Quem toma-lhes as mãos, frágeis e tremulas?
Quem seca-lhes as lágrimas sentidas?
Quem abranda-lhes as feições apavoradas,
E as suas noites de sono mal dormidas,
E os seus dias inteiros, pensativas,
E as suas horas inteiras, angustiadas?

Quem cuida das mães de UTI
Que oram por suas crianças internadas?
Quem descobre seus medos escondidos?
Quem compreende suas culpas descabidas?
Quem dá voz às suas vozes paralisadas?
E os seus corações que mal se aguentam,
Quem ouve, quem entende, quantos tentam?
Quem dá colo a sua dor desfigurada?

É chegada a hora em que as fronteiras do atendimento neonatal necessitam escapar dos limites frios que cercam as UTIS e tocar o coração materno dolorido e as necessidades da família despedaçada, reformatando a dor e reconstruindo a esperança, onde as aflições sejam apoiadas e percebidas e uma vez percebidas, consoladas. E a aflição consolada, se não dói menos, dói melhor porque dói sem destruir nem sufocar a esperança e a vida.
 
Recriar esses dias de dor imensa, para que novas prioridades e novas rotinas possam conviver em santa harmonia com a tecnologia e a farmacologia que a partir desse momento nunca mais se perceberão frias, transformando de uma vez e para sempre os longos, lentos, solitários e tristes dias de UTI.

Luís Alberto Mussa Tavares

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Receita para um dia feliz


Receita para um dia feliz:
Faça 29 anos de profissão.
Escolha mães queridas com que você conviveu durante esse período.
Umas 5...
Não...Umas 10...
Por que tão poucas? Escolha logo 20...
Escute a história delas, do nascimento de seus filhos, das suas lutas, das solidões e desassossegos, enfrentamentos, lutos, superações...
Registre essas histórias numa filmadorinha que você tinha guardado e achava que só servia pra filmar sobrinhos fazendo aniversario e saltos de esquibunda...
Guarde esses filmes todos numa pasta e chame-a ENTREVISTAS...
Assuste-se: são mais de 4 horas de conversas...
Picote cada uma delas em pedacinhos de 50 segundos, um, dois, tres ou quatro minutos...
Vai montando um grande relato e único com essas mães dolorosas, despedaçadas e renascidas da dor para uma maternidade absolutamente forte e impressionante bela...
Arrepie-se com a forma que a coisa vai tomando...
Feche a porta de seu escritório...
Chore, pode chorar...
Respire...
E chore mais...
Evite nessa hora escrever poesia ou atender celular...
A poesia são vozes de mães de filhos de um a trinta e três anos...
As vozes dessas mulheres de Atenas que oram por seus filhos desde a barriga são a unica musica a que você deve se permitir ouvir...
Para de chorar e volte às colagens...
Perceba que as horas já se foram, o Flamengo já perdeu, o Fantástico já acabou e você continua ali, sobressaltado, atônito, perdido entre vozes de anjos, louco como um adolescente num shopping decidindo o que vai levar, o que vai querer...
E vai construindo seu quebra cabeças com mil pecinhas quase inseparáveis quando coladinhas...
E assim, depois de horas, poste este texto pra dividir com o mundo que voce ta quase acabando...
Que daqui a pouco vai estar pronto um grande e intenso coral de mulheres valentes...
Vinte mulheres falando ao mesmo tempo que parecem uma só...
Vinte amigas que você colecionou durante a vida e que já te dão o direito de brigar com Neruda na justiça pela autoria da frase "Confesso que vivi"...
Daqui a pouco estaremos finalizando esse empenho...
Os Dias de UTI - O cuidado neonatal sob o ponto de vista do olhar materno...
Mães de UTI desfilando coragem, valor, valentia, força, medo, solidão, felicidade plena, angustia, resiliência, superação e vida...
Poste isso...
É sua receita de ser feliz...
E não faça acordos. Não troque isso por nada.
Deixa dizerem que ficou longo demais, ficou triste demais, ficou forte demais, ficou sem graça demais, ficou pouco técnico, pouco artístico, muito isso, pouco aquilo...
Deixa...
São mães desfilando suas palavras...
Cantando suas vidas como na poesia de Ferreira Gullar:

Sua voz, quando ela canta
Me lembra um pássaro, mas
Não um pássaro cantando...
Me lembra um pássaro voando...

E assim, vozes maternas, pássaros que voam, luzes de astros impressionantes...
E segue...
Daqui a pouco a receita vai estar pronta...
Uma homenagem, uma reverencia, um grito de alerta um pedido de socorro: quem cuida das mães de UTI?
Assim que apronta-lo, divida com toda gente da mesma forma graciosa com que o recebeu...
E estará pronta sua receita de felicidade...
Que Deus nos auxilie nessa caminhada.