quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Três minutos

 #OutubroVivo #casadocuidar #casapaliativa #paliativas #contemesperança

Em três minutos, ensinar alegria,
Ensinar como é que se prepara um pão,
Como se escreve poesia usando poesia,
Como a gente voa usando a meditação,

Em três minutos, como numa alquimia,
Como cuidar bem da respiração,
Como dançar, inventando a melodia,
Como colorir um coração,

Em três minutos, ou às vezes nem tanto,
Um truque de mágica que parece um encanto,
Inventar uma história que faz a gente sonhar

Em três minutos que ficarão guardados,
Para que possam sempre ser lembrados
Toda vez que o coração da gente precisar...

domingo, 18 de outubro de 2020

Dia do médico

O que você está sentindo? Desde quando?
Um remedinho. Já vai passar.
Me diz se dói quando eu for apertando.
Vai precisar internar.

Qual o nome do xarope que você está tomando?
Tem alguma coisa que você queira me contar?
É tipo uma pontada? Tá formigando?
Deita ali pra eu poder examinar.

Às vezes dói. Ou quase todo dia.
Às vezes causa fadiga de empatia.
Por trás de toda dor, o sofrimento.

E porque não é uma pena a ser cumprida,
Ser médico é escolher cuidar da vida,
E cuidar contém pedaços de amor dentro...

sábado, 22 de dezembro de 2018

O amor e a UTI


      

O amor é talvez o maior legado dos dias de UTI para as famílias que passam por essa experiência. Os laços de família se estreitam. As relações entre os pais se estreitam. O bebê encontra no amor familiar seu maior repouso. E mesmo nos dias de fototerapia, dopamina, cefotaxima e outros significados de grande dor, o amor é o grande refugio desses dias e o grande ponto de chegada tão sonhado.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Cantiga da despdida


Cantiga de despedida

I
Na tarde de uma UTI movimentada,
Sem que ninguém percebesse, em pensamento,
A mãe canta pro filho, comovida,
Um acalanto, desconsolada,
Uma canção derradeira, como um lamento,
Uma cantiga de despedida...

II
A tarde já vai indo embora, meu filho,
Se escondendo,
A noite escura querendo chegar,
Eu vejo seus olhos, cansados,
Se esquecendo,
Como se nunca mais fossem acordar...
E enquanto a tarde vai se recolhendo,
E o sol já se esquece um pouco de brilhar,
Escuta essa cantiga dedicada,
Uma cantiga pra você ficar,
A vida inteira há pela frente, filho,
Não deixa tanta vida se acabar,
É seu meu colo aquecido de carinho,
Fica comigo, vem descansar
Da dor,
Da solidão,
Do mal,
Do medo,
Da esperança que parece esfarelar,
A tarde vai indo embora, meu menino,
Fica um pouquinho mais,
Vamos brincar,
Vem crescer, andar, cair, se levantar,
Depois correr, cansar e descansar,
Se o choro chegar, a gente faz que não liga,
Me diz que não é tarde demais pra essa cantiga,
Cantiga de não morrer, canção de amar...

III
E o menino, em silencio e de partida,
Nesse momento de despedida,
Já quase sem saber como respirar,
Cantarola baixinho, à sua maneira,
Uma canção derradeira,
Que a sua mãe para sempre vai guardar:

IV
 Minha mãe, meu amor, minha garantia,
Porto seguro da minha vida,
Guarda dentro do seu coração essa alegria:
Não vai haver despedida,

Minha mãe, meu amor, meu astro guia,
Que faz minha alma fortalecida,
Guarda essa doce lembrança desse dia:
Não vai haver despedida...

Além daqui mãezinha, meu amor,
Eu vou levar você por onde for,
Porque nosso seu amor é a única saída...

Guarda essa nossa canção no seu carinho,
E de mãos dadas, nós dois, pelo caminho,
Não vai haver despedida...

V
Daí em diante nada mais se conta,
A mãe, o filho, a partida, a solidão,
Quem sabe um eco, entre monitores,
Continue ressonando um pedaço de canção,
De vida, sempre viva, rediviva,
Sem despedidas para o coração...

terça-feira, 23 de outubro de 2018

O coração materno

Uma vez há muito tempo eu tive um sonho bom 
Eu viajava uma longa e definitiva viagem ao centro do coração materno 
Ao coração de uma mãe de UTI 
Bem lá dentro 
Bem lá no fundo 
E esse dia nesse sonho foi como conhecer de perto a poesia no interior do furacão 
Atravessei no meu sonho cenários de dores imensas 
Cenários feitos de culpas que nunca cessaram mesmo quando nunca existiram 
Feitos de dias de grandes medos e ansiedades
Dias de expectativas sem fim 
Eu via saudades tenebrosas nesses dias
Vontades de filhos em casa
Ausências de quase causar asfixia
Era como mergulhar num rio cinzento 
Mas enquanto eu viajava por dentro desse temporal, uma luz incomum me chamou atenção 
E se chamava esperança essa luz
E alimentava aquele coração por baixo da tempestade 
Enquanto a viagem seguia a dor e a nebulosa ia dando lugar àquela luz de brilho incomum
Uma luz que era a presença diária ao lado do filho por mais que a dor queimasse e as pernas ameaçassem não suportar o peso da dor
Uma luz que era comprometimento 
Fidelidade
Resistência 
Perseverança 
Merecimento 
Uma luz que muitas vezes era traduzida de modo muito próprio e pouco convencional, admito, em forma de leite materno
Gotas de colostro
Alguns mililitros de leite e não mais que isso
Ou muitos copinhos numa descida das mamas que por vezes parecia não ter fim
Ah coração inesperado
Ah coração surpreendente 
Eu via a vida lá dentro do coração materno
Maior que tudo 
Maior que o medo
Maior que a culpa
Maior que a saudade
Vida imensa
Tão grande que quase nem a poesia conseguia descrever
Tão forte que quase a eletrocardiografia não era capaz de captar 
O coração materno de uma mamãe de UTI é como uma usina de força sem tamanho capaz de mover o mundo e inspirar a criação da vida 
Abençoada seja cada fibra dessa fonte que pulsa e aquece um calor que arrebata o mundo
Eu tive há muito tempo atrás um sonho bom
Eu viajava por um país que guardava por trás da dor e por dentro do medo um relicário de esperança e resignação, de movimento e ação, doação e superação...
Desse dia em diante eu nunca mais conseguia me sentir sozinho 
O coração materno eu percebi que era capaz de espalhar ternura por onde passava e essa ternura sem nome e sem definição era capaz de contagiar a humanidade inteira como uma pandemia de amor incondicional 
Eu tive um sonho bom que descobri que de tão bom era como se escapasse do sonho e passasse a fazer parte a partir daquele instante de cada instante dos meus dias e de cada dia da minha vida inteira 
Uma vez ha muito tempo eu tive um sonho bom
E depois desse dia nunca mais me foi permitido parar de sonhar 

Ao coração das mães de UTI com carinho 
Luis Tavares 

sábado, 15 de setembro de 2018

O leite materno não é o mesmo

Para Dalton e Rose, por ocasião de sua visita a Campos em 12 de setembro de 2018

O leite materno não é o mesmo.
Decorridos os dez primeiros minutos da mamada, ele já é outro.
Da mesma forma não é o mesmo depois de uma semana do que ele era nas primeiras horas de vida, e após a segunda semana também não é o mesmo que foi no quinto dia.
Entre as mães prematuras, não é o mesmo que é na mãe de 28 semanas do que é na mãe de 34.
O leite materno não é o mesmo na mãe medicada que é na mãe sem uso de medicamento algum.
O das mães vegetarianas não é o mesmo daquele das mães que adoram um churrasco.
Não é o mesmo nas mães senegalesas que é nas russas, nem nas brasileiras nordestinas que é nas mães quase compatriotas do alentejo.
O que habita a mãe apoiada não é o mesmo que existe na mãe despedaçada, na abandonada ou na mãe mergulhada em despreparo ou dor.
O leite materno da mãe resfriada não é o mesmo que há na mãe saudável, nem é o mesmo o leite das mães de colonias de pescadores e o leite das mães dos pampas gaúchos.
Não é o mesmo o leite após o quinto mes de amamentação, após o quinto filho, após o quinto copo de cerveja, a quinta hora de sono ou o quinto gol da Alemanha contra o Brasil.
O leite materno não se repete nunca. Nunca é o mesmo entre uma mãe e outra. Nunca é o mesmo entre momentos diferentes de uma mesma mãe.
Não é o mesmo na dor o que é na alegria.
Não é o mesmo na guerra o que é na paz.
Na ditadura, nos estados de exceção, na opressão do jugo armado não é o mesmo que é no estado democrático de direito.
Não é o mesmo num presidio o que é numa praça publica, num Banco de Leite ou numa UTI Neonatal.
Quase como uma representação arquetípica de um camaleão, por tão diverso que é, tão sem replica, unico a cada instante, as vezes me pergunto por que motivo damos a todas as suas configurações o mesmo nome comum de leite materno.
Talvez porque, como mães que igualmente nunca se repetem, não se conheça nada nessa vida tão completo, absoluto e mágico e tão exageradamente farto de poder.
O leite materno, que não se repete e que nunca é o mesmo, é o pedacinho que nos é dado conhecer da quase indecifrável poesia de Deus.





domingo, 27 de maio de 2018

Carta à uma mãe de UTI

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Tornar-se mãe de UTI não é desejo para nenhuma mãe. Muito menos opção. Sabe aquele momento em que a sua única opção é ser forte? Então, o momento é esse. Esqueça a fragilidade do resguardo, dos sentimentos delicados, da calmaria do pós parto com um bebê nos braços e a curtição dos primeiros momentos. Sua vida será invadida por medo, insegurança, dor, desespero... e você ainda terá que ser forte.
E assim me vi ali, dentro de uma UTI. Os pontos ainda ardiam mas eu não me permitia ficar deitada, queria vê-la. Minha filha. Nasceu e foi para uma UTI, me trouxeram registro de um bebê de um pouco mais de 500 gramas e a observação: é muito pequena. E eu, na minha mente e na minha mas pura inocência pensando, tudo bem, já brinquei com  bonecas pequenas quando era criança, vou aprender a cuidar dela. E assim, a pequenos passos fui vê-la, e quanto mais me aproximava da incubadora, menos via. Cadê ela?
Ela não era miúda. Era minúscula, numa indescritiva proporção de tamanho para a minha imaginação do que seria um bebê. E não era só isso. Tinha fios e tubos por todo o seu corpo, sua pele era estranha e eu recebia a informação da pediatra: Sua filha é um bebê grave. Gravíssima. Parece que o chão se abre e você cai num abismo sem ter onde se segurar. E ali você tem q descobrir onde encontrar sua força, pois na sua frente tem um bebê que precisa disso para sobreviver.
Os dias passam a ser cada vez mais longos. E sim, você vai querer ir ao lugar que mais te trará dor, todos os dias, pelo simples fato de lá se encontrar a fonte de todo amor que pode caber no seu peito. Serão dias terríveis, mediados por dias horríveis e às vezes alguns dias melhores. Mas ainda assim você encontrará resquícios de alegria por entre toda essa dor. Às vezes em algum sinal de melhora, às vezes por um rápido sorriso. Mas acredite, você encontrará.
Foram 163 dias de ventilação mecânica. Então, tem essa parte que você passa a aprender todos esses termos técnicos e passa a perguntar por eles. E tem a parte que você tem que aprender que terão dias de pioras. Terá a parte de você sofrer com a dor de outras mães. Mas com isso você também vai aprender a dar mais valor a pequenas coisas do dia-a-dia. A vida ganhará novo significado.
Passei 231 dias ao lado da minha filha em uma UTI Neonatal. 231 Longos dias. Saí com minha filha nos braços. Saí numa correria esfuziante como se tivesse deixado pra tras todos os problemas que poderiam existir. Mas uma mãe de UTI não deixa de ser mãe de UTI na alta. Você continua sendo mãe de UTI nas muitas consultas que virão pela frente, nos muitos especialistas que terá que procurar, e sim, ainda terão ocorrências pela frente. Com a diferença que você está em casa, sozinha com sua filha, e terá que correr com ela nos braços a procura de socorro.
Se valeu a pena? Bom, lembra que não é uma opção? Ai que entra a força, aquela que te fará lutar por cada segundo de felicidade que poderá proporcionar a sua pequena. E ai você vai ver que os pequenos momentos se agigantam numa imensidão que posso te dizer com toda certeza: Vai valer a pena! Tudo! E sua alma nunca mais será pequena.
E após 4 anos fico novamente grávida. Entrei sim em desespero no primeiro momento. Me cuidei de todas as maneiras possíveis para fugir dos dias de UTI. Fugi, fugi, fugi... E novamente fui mãe prematura. Quando me encontrei novamente na porta da UTI para ver minha segunda filha, desabei. Não quis entrar, senti novamente toda dor daqueles dias, toda junta, atrás de uma porta a qual eu tinha que abrir pois atrás dela havia outra pequenina a minha espera. Minha filha. Não consegui abri. Voltei para o quarto, esperando a força vir, pois ali naquele momento eu a tinha perdido. A força não vem o tempo todo. E você vai descobri o verdadeiro significado da palavra fé!
Voltei até lá e entrei. Entrei e chorei. Porque vi outra pequenina, tão frágil. Já perguntei por ela com o conhecimento do que era todos esses tubos e fios ligados a seu corpo. E voltei ao dia-a-dia cuidar, rezar, amar. Mas dessa vez não à espera desesperada da alta, pois já sabia que a alta é apenas mais um passo. Só queria que tudo ficasse bem.
46 dias depois saio novamente de uma UTI. Agora com reforço, pois levei minha mais velha para busca-la. Não é fácil. Mas tê-las nos braços me faz forte. E sei que meu braço as faz forte. Você vai perceber isso. Que você faz seu filho forte quando o aconchega nos seus braços. E no final é só isso que mãe e filho precisam.

Lívia Ressiguier
Mãe de Aymee e Paolla

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Terra de Gigantes

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Gigantes.
Gigantes são figuras mitológicas de grande tamanho.
Gigantes são personagens dotados de grande força.
Gigantes são corajosos.
Gigantes são resistentes.
Gigantes enfrentam grandes perigos e não se abatem com qualquer enfrentamento.
A história é prodiga de seus gigantes:
Porfirio, Ticio, Tifão, Gerião, Aloidas, Agrios e Golias.
Gigantes com varios metros de altura.
Gigantes com muitos quilos de força.
Mas recentemente temos observado a presença em nosso meio de uma outra especia de gigante cada vez mais frequente.
Da mesma forma que os primeiros, esses novos gigantes são dotados de grande força.
Incomparável a sua coragem.
Inconfundível sua resistência.
Sua capacidade de enfrentamento das adversidades da vida parece não ter fim.
Esses novos gigantes não se abatem fácil diante das intempéries.




segunda-feira, 19 de março de 2018

O tamanho do estomago de um bebê

Um bebe nascido no tempo adequado pode receber de 5 a 7 ml de leite em seu estomago (que é do tamanho de uma cereja) no primeiro dia de vida.
No terceiro dia, seu estomago é do tamanho de uma noz e cabe de 22 a 27 ml de leite.
Com uma semana tem o tamanho de uma ameixa e cabem nele 45 a 60 ml de leite.
Com um mês, seu estomago do tamanho de um ovo é capaz de receber de 80 a 150 ml de leite.
Mas essas contas são as de um bebê a termo.
Um prematurinho que nasce com 2000 gramas ou outro que nasce com 1000 gramas mais ou menos tem capacidades menores que essas.
Mães prematuras que se assustam com uma retirada de 5 ou de 10 ml não fazem ideia do  valor dessa quantidade de leite pro seu bebê
10 ml de leite materno é um rio.
10 ml de leite materno é um mar.
E 10 ml não é a quantidade de leite que a mãe conseguiu produzir.
10 ml é a quantidade de leite que a mãe conseguiu fazer descer e poder contar.
O leite produzido na mama, lá dentro, desce sempre quando a mamãe está em paz, está calma, está bem.
10 ml a partir desta data não mais será considerada uma quantidade menor, mas muito diferente disso, 10 ml desta data em diante será conhecido como um mar de amor...

10 ml de leite materno é um oceano de amor,
10 ml de leite materno é carinho e proteção,
O bebê que recebe esses 10 ml é um vencedor,
A mamãe entrega nesses 10 ml o coração ...


Porque 10 ml de leite materno tem tanto valor
Que é certo afirmar: não há comparação.
Nada é mais forte nem tem mais sabor
Que 10 ml de leite materno, ah não ...


Então é bom saber que quantidade
Não é sinônimo de qualidade,
Por isso as vezes 10 ml é um mar,


Um mar de amor enorme, os 10 ml,
Amor visivelmente a flor da pele...
Ah quanto amor tem esse começar...

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

O contato com o seio

Estimulando o contato com o seio

Uma vez esclarecido que contato não é sucção, estimular contato não significa por o bebê pra sugar. Aproximar o bebê do seio. Permitir o toque da mama pelas mãos do bebê. Permitir ao bebê sentir o cheiro da mama, escutar a sonoridade materna, permitir ao bebê até, porque não, abocanhar o mamilo ainda que seja somente para experimentar este gesto... Isto é estimular contato com o seio. Com o seio que ele deverá sugar. Não há pré-requisitos para este procedimento. Não carece de estabilidade clinica. Não obedece a parâmetros de habilidade de sucção. Contato é apenas contato. Visual. Tátil. Olfativo. Oral. Estimular o contato com o peito é como apontar o caminho. A natureza se incumbe de garantir a caminhada ao destino.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

A rima

A rima tentou falar comigo, eu nem vi,
Eu nem prestei atenção,
Ela veio atrás de mim, eu nem senti,
Deixei a rima com a cara na mão,

A rima insistiu e me pediu, eu não ouvi,
Para que eu deixasse ela falar, mas não,
Eu fui deselegante e foi ai
Que a rima foi-se embora. Que situação.

Agora eu fico aqui arrependido,
E dá um medo de ficar perdido:
Fazer versos sem rimas não tem graça nenhuma...

Da próxima vez vou tomar mais cuidado
(Quem é que não gosta de ser bem tratado?)

E fazer de tudo pra que ela não suma...

domingo, 22 de outubro de 2017

A história de Amanda, Rogerio e Maria Vitória

“Otimismo é quando, sendo primavera do lado de fora, nasce a primavera do lado de dentro. Esperança é quando, sendo seca absoluta do lado de fora, continuam as fontes a borbulhar dentro do coração”,

Rubem Alves


Hoje vamos conhecer a história de Maria Vitória e de seus pais Amanda e Rogerio.

Há pouco mais de um ano Maria nasceu de parto prematuro extremo.

Do mesmo modo como acontece com todas as nossas mães, orientamos a Amanda que retirasse seu leite diariamente para oferecer a sua pequena Maria que naqueles primeiros instantes não sugaria no seio mas poderia se alimentar com o leite materno oferecido por sondinha.

Assim foi feito.

Amanda, mesmo morando longe, em outro município distante mais de 50 quilômetros de Campos, comparecia diariamente à UTI sempre acompanhada de Rogerio para que pudessem acompanhar sua filha e Amanda pusesse retirar seu leite, muito importante para a bebê.

Foi uma longa e lenta e exaustiva jornada, mas impressionava toda equipe o comportamento colaborativo e gentil dos pais durante todo o processo.

Amanda e Rogerio atravessavam 50 quilômetros diariamente para estar perto de sua bebê e para oferecerem carinho e leite materno.

E não era pouco leite.

Era leite do tamanho do amor de seus pais pela pequena e da gratidão da pequena por seus pais.

O início, como qualquer início, foi previsível.

Amanda e Rogerio compareciam diariamente à UTI, Amanda tirava seu leite que ia para a pequena Maria e essa cena se repetia várias vezes e sempre diariamente.

O tempo, imperdoável, foi seguindo seu rumo.

Em sua longa jornada na UTI, na sua luta para sobreviver, Maria apresentou graves complicações neurológicas, respiratórias e infecciosas que a mantiveram sob cuidado da UTI Neonatal por vários meses.

Estava cada vez mais evidente que a pequena Maria não sugaria no peito da Amanda como resultado de sua condição clinica delicada.

Mas Amanda, aparentemente alheia a essa improvável possibilidade, seguia marcando horários na sala de coleta do leite e fazendo pela Maria o que estava a seu alcance: oferecendo seu leite.

Eram ordenhas diárias de grande volume.

Várias vezes por dia.

Incansáveis.

Dedicação incondicional.

Lembro me que uma vez Amanda me procurou dizendo que sua produção de leite estava diminuindo. Queria ajuda. Um medicamento que melhorasse sua produção. Nessa época Maria já contava com 4 meses. Já havia sofrido cirurgias de alívio para a lesão  neurológica. Fazia crises. Ficava quase o tempo todo sob assistência respiratória. Mas antes que meus raciocínios miseráveis me questionassem por que Amanda ainda se esforçasse para oferecer seu leite a um bebê com tantas outras necessidades vitais, felizmente meu coração escutou seu coração materno e sem questionar ajudou aquela mãe extremada a seguir seu caminho de doar se em leite ainda por mais alguns meses para aquele pedaço gigante de seu coração que cada um de nos chamávamos de Maria.

Poderíamos aqui traduzir em números quantos meses duraram essas coletas e quantos litros de leite Amanda retirou para sua pequena Maria, sempre apoiada pelo Rogerio.

Mas traduzir em números seria muito pouco para entender o que aconteceu entre Maria e Amanda e Rogerio.

E o que aconteceu foi que tecnicamente Amanda percebeu desde muito cedo que sua pequena Maria não sugaria no peito.

Amanda percebeu desde muito cedo que a condição clinica de Maria era extremamente grave, risco de vida eminente.

Amanda percebeu desde cedo que as possibilidades de melhora do quadro sempre se mostravam muito remotas.

Mas Amanda, mesmo sem primavera do lado de fora, mesmo cercada de seca e de incerteza, em nenhum momento deixou de viver uma linda e exuberante primavera em seu coração.

Amanda e Rogerio foram pais escolhidos a dedo pelas bênçãos de Deus para cuidar da pequena Maria.

O que se seguiu é que Maria recebeu leite materno por muitos meses, e com leite materno, carinho, imunidade, proteínas, força e desenvolvimento.

Amanda e Rogerio são preciosos símbolos de pais que, mesmo quando não há motivos para mostrarem-se otimistas devido às condições clinicas graves de sua filha, provam que a esperança sempre tem terreno para florescer.

Hoje Maria está em casa.

Hoje Rogerio e Amanda guardam a paz no coração por estarem sendo o melhor para sua bebê, sua família.

A história de Rogerio, Amanda e Maria é um exemplo de dedicação e possibilidade.

É um exemplo de presença e força da esperança mesmo quando o otimismo não encontra forças para subsistir.

Pedi a querida Amanda para contar aqui sua história.

Com a delicadeza e a serenidade de sempre, Amanda aceitou ter sua história divulgada para dar força a outras Amandas, muitas vezes tristes, muitas vezes sem motivos para acreditar, muitas vezes cansadas e extenuadas de uma UTI que parece sugar nossas forças e esmorecer nossa fé.

Que a história de Amanda, Rogerio e Maria possa alimentar esperanças em nossos corações.

Dedico esse relato à pequena Maria e aos seus pais.

E a nossas mãezinhas amadas, seus pares e seus bebês.

Deus esteja conosco hoje e sempre.


Luis Tavares

UTI Neonatal Nicola Albano

22 de outubro de 2017

terça-feira, 10 de outubro de 2017

O contato do bebê com o peito...



Simples assim: estimular o contato, 
A mãe e o filho em seu colo, frente a frente, 
O cheiro, a temperatura, a cor, o tato, 
E uma mãe contente, e um bebê contente... 

Simples assim, como se fosse o contrato 
De um vínculo que vai durar eternamente, 
Eliminando de uma vez o hiato 
De uma mãe ausente, de um bebê ausente... 

Estimular o contato: a mãe, o filho, 
A mesma vocação, o mesmo trilho, 
A mesma vontade, a mesma direção... 

Estimular o contato... E não precisa mais nada, 
A natureza, sempre que bem cuidada, 
Toma conta da sua própria proteção... 

domingo, 8 de outubro de 2017

O piquenique

Poema comemorativo dedicado ao encontro de mães vitoriosas da UTI Neonatal Nicola Albano e de seus pequenos guerreiros em 23 de maio de 2015 que aconteceu no CEPAP, Campos dos Goytacazes, RJ, quando elas por iniciativa própria fizeram um lindo piquenique para marcar seu reencontro.


Era uma vez uma mãe,
Que encontrou outra mãe,
Que havia combinado com uma mãe,
Que conhecia outra mãe,
Que era amiga de uma mãe,
Que havia conversado com outra mãe,
Que tinha recebido mensagens de uma mãe
Contando que outra mãe teve uma ideia
Que era uma ideia realmente muito chique:
Vamos nos juntar para fazer um piquenique?

Foi aí que Alessandra combinou com Kele,
Levarem, juntas com Luana e Daniele,
Uma cesta de sanduíches de alegria,
Enquanto Fabiana procurou Geovana,
E após conversarem com Rosana,
Se encontraram com a outra Fabiana
E garantiram alguns cookies de simpatia.

Marcela ligou pra Isabela,
Que avisou pra Noelia,
Que comentou com Natalia,
Que conhecia uma padaria
Que preparava gotinhas de otimismo todo dia...

Grazyela e Tatyla levariam pãezinhos
Recheados de carinhos,
Já Antenora, umas broas,
E Thayná, pastinha de coisas boas...
Alessanda, um bulinho de achocolatado.
Flávia, um bolinho de amor redobrado,
Karina, cupkakes de felicidade,
Kelly, empadinhas de amor de verdade,
Veronica, um pratinho de mulher guerreira,
Debora, um potinho de garra brasileira...
  
Um piquenique de mães,
Ceio de paz,
Mas não seriam somente as iguarias
As responsáveis por suas alegrias
Naquele piquenique combinado.
Olha só quem também era esperado:

Bianca e Leticia,
Que delicia,
E também Maria Rita, moça bonita,
Maria Cecilia, que maravilha,
E mais Pedro e Noah, que coisa boa,
E olha que irado:
Matheus, Eduardo e Bernardo
Que nem são levados,
E a lista não para:
Lara e Sara, felicidade rara,

E eu acho que ouvi
Que Heitor e Davi
Ficaram de ir,
E para não haver escarcéu
Trariam Ruan e Miguel,
E Anthony e Samuel,
Que são como anjinhos do céu,
Isso e que é
Uma festa de arromba:
Davi e Amanda,
Completando a banda,
Lara e Isabela para ficar na janela,
E um dia feliz pra Mayte e Beatriz.

Um piquenique
De mães e filhos,
Filhos da mesma superação
Um piquenique de mães e filhos,
Que pareciam irmãos.
Um piquenique
De mães e filhos,
Cantando a mesma canção,
Nas mesmas vozes...
Um piquenique
De mães e filhos
Que mereciam dias felizes.
  
Depois daquele dia,
Pelo que se sabe,
Essas mães e esses filhos
Nunca mais se afastaram,
Perceberam que formavam
Uma grande família,
Não pelo berço em que eles nasceram,
Mas pela história comum
Que atravessaram.
Uma história comum,
Mas incomum,
Que mães e filhos,
Juntos,
Superaram.

Era uma vez uma mãe,
Que se identificou com outra mãe,
Que havia se conhecido uma mãe,
Que sabia de outra mãe,
Amiga de uma mãe,
Que havia consolado uma outra mãe,
Que tinha recebido força de outra mãe,
Que chegou à seguinte conclusão:

Ser mãe
Do jeito que cada uma de nós fomos,
Passando pelo que nós passamos,
Vivendo os dias que nós vivemos,
Enfrentando os medos que nós enfrentamos,
Arriscando tudo que nós arriscamos,
Conhecendo de perto a dor que conhecemos,

Fez com que a gente se tornasse mãe
De uma forma que a gente não conhecia,
Mistura de incertezas com certezas,
Mistura boa da fé de quem confia,
Tendo a força de Deus por garantia,
Tendo seus anjos em nossa companhia,

Era uma vez uma mãe,
E outra mãe,
Mas na verdade
Acho que era não,
Uma mãe e outra mãe e outra mãe,
Quando se juntam,
São como se fossem um só coração.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

O leite de peito não vaza

É muito comum o uso da expressão "meu leite está vazando"
Ela remete imediatamente a imagem de mamas encharcando a roupa da nutriz, como bem cabe a uma expressão auto explicativa, que dispensa legendas.
Se a gente tentar entender as coisas como elas são, vamos concluir que o gás de cozinha vaza quando o botijão está mal vedado, que a água do balde vaza quando ele está rachado e que se o cano vaza significa que ele está com defeito em suas juntas e conexões.
Mas é o leite materno? Será que ele vaza quando a mama está rachada, quando ela está muito cheia ou quando está apresentando algum defeito no seu papel de guarda do leite? Seria adequado pensar no leite vazando da mama como se pensa em um apartamento do andar de cima vazando para o apartamento do andar de baixo?
Quando se diz que a mama vaza pode se entender que ela o faz assim como o copo cheio ou como o balde rachado?
Na verdade dizer que a mama vaza chega a ser um exagero ou mais exatamente um erro. E isso por uma única e definitiva razão: a mama não vaza.
Dizer que mamas não vazam pode parecer uma afirmativa falsa.
Mas vejamos:
É coração materno quando está tranquilo ou em paz o principal responsável por acionar um mecanismo hormonal neurológico e muscular que espreme os minúsculos saquinhos localizados na mama, saquinhos onde o leite está armazenado esperando ser sugado, e nessa expressão expulsa o leite que jorra e escapa pela mama como numa explosão de alegria da mesma forma que a lava jorra de um vulcão  ou que o jato de espuma  jorra da garrafa durante as comemorações de fim de ano, e como resultado dessa contração o leite vai expulso da mama como um grito líquido que traduz a prontidão materna para a amamentação.
Mas não é o leite superficial e próximo da saída da mama o que essa força do bem estar materno expulsa gerando o que erroneamente chamamos de vazamento do leite. As estruturas mais profundas do interior da mama são contraídas com tanta intensidade para trazer o leite das camadas mais distantes para o exterior que muitas vezes nessa força incomparável as mamas chegam a fisgar, revelando a intensidade e amplitude desse reflexo e mostrando sua complexidade e o envolvimento de várias estruturas para sua execução.
O leite materno não vaza simplesmente como um gás ou como um leite que ultrapassa a borda do canecao.
O leite que escapa da mama é certamente a forma concreta do mais belo poema materno escrito sem precisar de palavras mas que poderia se chamar felicidade.
  

sábado, 9 de setembro de 2017

Alice e seu livrinho...


Eu preparo uma canção silenciosa
De um silencio que quase cause inquietação,
Escrita sem palavra, inútil e dispendiosa,
Num idioma de pura percepção,

Eu preparo uma canção minuciosa,
Quase inaudível, mas sem desatenção,
Composta de arquitetura cuidadosa,
Delicadamente elaborada... Uma canção

Que faça acordar os homens poderosos
Para o poder dos gestos silenciosos
E para a força das palavras mansas...

Uma canção que se espalhe aos quatro ventos,
Que faça acordar os homens desatentos,
E adormecer as crianças...

sábado, 24 de maio de 2014

II Encontro de Pais e Cuidadores de Bebês Prematuros de Campos
15 e 16 de maio de 2014. Campos dos Goytacazes - RJ.

Material disponibilizado para download.

Livro "Poemas para Almas Apressadas".

Curso de Amamentação em Prematuros sob a ótica do cuidado individualizado e voltado para o seu desenvolvimento.
Download do Curso.

O filho que eu quero ter.
Assistir ao vídeo.