quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Amamentando

Chegara para ela o grande momento.
Depois de 14 intermináveis dias de afastamento e sofrimento em uma UTI Neonatal que não conta a mãe como parte da cura, depois de terríveis dias de respirador e CPAP, aminas e cefalospirinas, parenterais e cateteres, depois dessa imensa tsunami salvadora, chegava seu filho à Unidade Intermediária apresentando estabilidade clinica e podendo por isso, conforme as normas desumanizadas daquele Hospital, ter um maior contato com a mãe, ainda que limitado.
Nascera o menino prematuramente após inesperado descolamento de placenta, pesando pouco menos de 1800 gramas. Salvo da morte aparente por tubos e bolsas infláveis, foi completamente artificial sua vida durante os primeiros dias na UTI.
Tornou-se uma lista de problemas e um conjunto de condutas. Não teve direito naquelas semanas a um nome, a um lar, ao sono, à noite ou ao silencio.
Não teve sequer considerada a sua dor fisica, conquanto os procedimentos todos lhe foram massacradamente aplicados de forma cruel e impiedosa.
Tratado como uma pecinha clinica, sobreviveu a seus cuidadores descuidados.
Chegara então, também para ele, sem que ele percebesse, o grande momento.
Meu filho! disse a mãe ao vê-lo pela primeira vez na Unidade, livre de tubos e conexões, aparentemente autônomo, dono da própria jornada dali para diante.
Era ainda inicio de plantão.
As mãos entrelaçadas como entrelaça a mão quem reza com fervor, alinhada ao olhar atento e com brilho materno daquela doce adolescente de seus 16 anos, me chamaram atenção.
Aproximei-me.
É fácil a aproximação entre os seres quando um deles tem doses mínimas de boa vontade e o outro é só sorriso. E aquela mãezinha era só sorriso.
Menina ainda e já mãe, metralhou-me com um numero sem fim de perguntas que quase sem fôlego tentava eu responde-las todas e de forma gentil como era o merecido repouso para aqueles corações já tão cansados.
Quando for assim, eu recomendo que a gente esqueça o relógio e peça licença ao profissional para permitir que o homem se manifeste em seu lugar.
E assim sendo, trocamos muitas palavras e sorrisos que a fizeram acreditar nas minhas amizade e boa intenção e me fizeram acreditar nas maravilhas que a minha ciência tem o poder de alcançar e fazer o coração dos homens atingir.
Foi quando o homem no lugar do profissional cedeu, ao olhar para a roupa da mãe, e perceber que da sua blusa escorria leite e não em pouca quantidade ou que não fosse imediatamente percebido por um observador distraído.
Retorna o médico à cena e vê ali a descarga ocitocinica essencial à amamentação que seria tema certo das próximas conversas.
Mãezinha, seu leite esta descendo...exclamei. Ela sorriu. Mais que depressa, e com tato, iniciei ali mesmo naquela hora as primeiras palavras sobre a amamentação, sua importância, o bebe sugar, essas coisas...
Foram mais minutos sem conta e empolgação sem medida.
À proporção que eu falava ela se animava e a animação dela era o combustível de novos caminhos e explicações sempre amorosas e sempre motivantes que eu lhe oferecia.
Explodimos então.
Tudo em volta cheirava ocitocina.
Foi quando, sempre por um desses reflexos inesperados e despercebidos, não sei de onde eu trouxe para ela uma frase que mudaria o rumo da nossa prosa:
Ah, mamãe, eu já ia esquecendo de dizer uma coisa: amamentar é bom demais e você tem tudo pra chegar lá, mas você não precisa conseguir ta?
Ela me olhou, sem sorrir pela primeira vez desde o inicio, e eu continuei
Sabe, mamãe, você e seu bebe estarem até aqui já é a maior prova de amor que vocês irão levar por toda a vida. Ele venceu a morte, o sofrimento, a prematuridade, a distancia dos pais. Você venceu o descolamento, o afastamento de seu filho, a tensão dos familiares, a frieza da equipe de saúde e hoje estão aqui os dois, um com o outro, completamente renascidos e inteiros, né? Você não precisa consegui nada. Você já conseguiu o maior premio que uma mulher pode dar a si própria e a seu filho: você é uma mãe exemplar. Posso aplaudir vocês?
Nessa hora fiz o teatrinho que às vezes faço até nos consultórios públicos para elogiar uma situação que careça de elogio: postei-me em pé e a aplaudi devagarzinho dizendo Parabéns mamãe, parabéns, bebê.
Nessa hora, nossa mãezinha começou a chorar. Aquela fortaleza adolescente encontrou, penso eu, nas minhas palavras, finalmente alguém que não dizia que ela tinha que ser forte. E ela desabou. Chorou como quem traz de volta ao coração presente as imagens e a intensidade da dor acumulada que não encontrara até ali um caminho próprio de escoar.
Imaginem como é difícil para mim me conter numa hora dessas. Tenho que pensar em um pedaço de pizza ou em um filme de Stallone pra não chorar junto.
Pela terceira vez esqueci o tempo.
Abracei aquela moça bonita e dei-lhe um beijo na testa.
Aos poucos seu soluço, acalentado pelo abraço e pelo silencio, passou.
Olhamos para seu filhote na incubadora assim. Ele arecia dormir um sono sereno.
Ele é lindo não é, Doutor?
E foi assim, naquela manhã sem hora, que se deu minha descoberta sobre apoiar o que não se percebe ou se pede para ser apoiado. Apoiar a fragilidade camuflada. A força frágil. A mãe que pede apoio sem deixar transparecer que precisa dele.
Foi assim naquela manhã.
Seu bebe é lindo mamãezinha. Seu bebe é lindo.

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