quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Quem cuida das mães de UTI?

Vivemos dias incríveis.
Bebes nascidos com pesos cada vez menores são a cada dia beneficiados pela tecnologia das Unidades de Terapia Intensiva Neonatais.
Profissionais cada vez mais bem capacitados se utilizam de técnicas cada vez mais afinadas para garantir sua sobrevivência. É como se estivéssemos vivendo o milagre da tecnologia, onde não há limites, onde o impossível não apavora e a impossibilidade é vencida a cada desafio, tornando-se um verbete sem uso, uma ideia desnecessária.
Vivemos dias fantásticos.
Bebês que há algumas décadas não tinham esperança de sobreviver, voltam para suas casas muitas vezes após passarem meses em UTIs Neonatais e recebem da ciência uma nova chance de vida.
Bebês cuidados pelas UTIs Neonatais, cada vez mais necessárias.
E os números são impressionantes: 13 milhões de nascimentos prematuros por ano, sendo 11 milhões deles na África e na Ásia.
Aproximadamente 10% dos nascidos vivos em nosso município são prematuros ou nascem com baixo peso.
Uma nova sociedade nascida do progresso da ciência.
Há um pensamento oriental que diz que por menor que seja uma pedra, ela tem sempre dois lados.
Que grande verdade.
Envolvida com o tratamento do bebe, a tecnologia não percebeu uma pergunta que não se respondia:
Quem cuida das mães de UTI?
Quem percebe sua dor? Quem se importa com ela?
Que Unidade as envolve no cuidado com seu filho?
Quem se envolve com sua família? Com sua desestrutura?
E muitas mães se perguntam, por conta disso: “A UTI cuida dos nossos filhos. Mas quem cuida de nós?”.
Mergulhadas num grande vazio formado pelas duras regras de funcionamento das UTIS, pelo estabelecimento das normas de visita (como se mães deixassem de ser mães e passassem a ser visitas de seus filhos), pela falta de acomodação necessária para permitir o conforto de sua presença ao lado de seus filhos e muito também por sua dor não acolhida, causada pela crise da internação e dos procedimentos em uma Unidade Neonatal, por tudo isso, as mães prematuras formam, sem perceber, o grupo humano mais negligenciado em toda a história da saúde no mundo através dos tempos.
Frágeis, mal conseguem caminhar de casa até as UTIs que cuidam de seus filhos, localizadas em andares muitas vezes distantes da entrada do Hospital.
Tristes, não recebem tempo de escuta e acolhimento suficientes pela equipe de saúde já assoberbada com as inúmeras atividades da rotina hospitalar.
Enfraquecidas, tem sua dor potencializada muitas vezes por determinações medicas inegociáveis como suspensão de visitas ou impossibilidade de amamentação...
Subtraídas daquele que pela lei natural dos acontecimentos deveria ser seu direito mais elementar: o mátrio poder...
Uma cidadela formada por cidadãs diminuídas pela dor, desassistidas pela rotina necessária, desamparadas pelo sistema.
São as mães de UTI. Quem cuida delas?
Durante centenas de milhares de anos foram as mães as primeiras cuidadoras de seus filhos.
No inicio do século passado eram frequentes os relatos dos bebês que cresceram “na caixinha de sapato” cuidados por suas mães.
A Neonatologia moderna de alguma forma, como outro lado da moeda, afastou a mãe do cuidado com seus filhos. Os bebês de UTI vivem hoje longe de suas mães. A UTI cuida deles. Delas não.
A sociedade como um todo precisa acordar para este fato: é necessário cuidar das mães de UTI. Das mães desmaternizadas pela técnica, enfraquecidas pela dor, diminuída pela solidão, pelo medo, pela culpa e pela ameaça que cerca a vida de seus filhos e desestrutura seu coração.
Por uma Casa de Apoio à Mãe de UTI em Campos.
Onde mães possam receber carinho, apoio, acolhimento.
Onde possam aprender a cuidar de seus filhos, onde possam perceberem-se cuidadas em sua dor.
Onde possam comer, dormir, refugiarem-se nos dias cinzentos, regozijarem-se nos dias de luz e cor...
Por uma Casa de Apoio à Mãe de UTI em Campos.
Porque um bebê sozinho não existe. Existe um bebê e sua mãe. Assim falou Winnicott.

Um comentário:

  1. Que bom encontrar pessoas que se preocupam com as mães de UTI.A neonatologia avança a passos largos na tecnologia, mas ainda precisa se desenvolver muito no cuidado com as mães que levarão este bebê para casa. Parabéns e vamos gritar aos quatros cantos que mãe e pai não são visitas.Mercem toda a atenção e não só do grupo Psi. Abraços Dra. Míriam R. de Faria Silveira Pres.Depto. Saúde Mental da Soc Ped SP

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